Arte em jogo #1 Papo & Yo
quarta-feira, agosto 26, 2015
Papo e Yo é um dos primeiros jogos que, para mim, é de fato um obra
de arte que só poderia ser realizada usando a linguagem dos vídeo games. O
criador do jogo é o brasileiro Vander Cabllero que tentou contar um pouco da
sua experiência de crescer convivendo com um pai alcoólatra. A proposta do Papo e Yo é te fazer entender o que
acontece na cabeça de uma criança que precisa conviver com um pai alcoólatra
através de uma metáfora embutida no jogo, isso ao som de uma trilha sonora
espetacular e gráficos que não deixam a desejar.
O jogo consiste em resolver pequenos puzzles. Você controla o personagem Quico, um garoto sulamericano (brasileiro, por que não?) que vive em uma favela. Quico conta com um robô de brinquedo (Lula) e um monstro para resolver esses puzzles. O monstro, basicamente, te ajuda a alcançar lugares mais altos e abrir passagens que você não consegue abrir, afinal ele é grande e forte e você é só uma criança. Essa criatura é guiada por instintos simples e básicos (comer e dormir) de modo que, ajudar Quico é apenas uma consequência natural da própria natureza do monstro. O viver para o monstro implica necessariamente em ajudar o jogador a seguir em frente no jogo. No entanto, o monstro está sempre à procura de sapos para comer, ao comer um desses, ele perde o controle e acaba atacando a única pessoa que interage diretamente com ele, Quico, ou qualquer outro ser que esteja próximo de Quico. O robô, além de permitir saltar um pouco mais alto, te ajuda a apertar botões que suas mãos não alcançam e ativam mecanismos que transformam ou permitem que você altere, de acordo com seu desejo, algum aspecto daquele mundo.
Leia o parágrafo anterior
novamente, mas troque as palavras “robô” e “monstro” por “infância” e “pai”,
respectivamente. Jogar Papo & Yo é uma experiência muito diferente
de ler um texto em primeira ou terceira pessoa. Esse foi o primeiro jogo que
joguei que utiliza a principal vantagem da linguagem dos jogos como plataforma
para um obra de arte, moldar a mecânica do jogo a favor de permitir que você entenda e viva a mecânica
da historia de um modo que a literatura e o cinema não permitem. Ao terminar o
jogo você tem a sensação de que essa história não foi simplesmente contada,
você viveu essa relação de amor e ódio com o monstro. Você não acredita que é
complicado depender do monstro porque viu como Quico teve que se virar, você
acredita porque você teve que lidar com ele. O jogo em si tem poucos diálogos e
palavras na tela para ler, a história vai se desenvolvendo de maneira fluida a
medida que o jogo avança, mas a maior parte é contada sutilmente no cenário do
jogo, na mecânica dos puzzles e na
trilha sonora.
Quando ouvi falar desse jogo, lembro de ter achado a proposta interessante, mas não tinha dado muita
importância. Até que um amigo resolveu me presentear, decidi jogar 5 minutos
entre uma tarefa e outra para ver como era e acabei jogando por mais de uma hora
sem perceber. Depois de terminar o jogo e ver o final, sem perceber, fiquei
refletindo sobre tudo aquilo que tinha acontecido durante e no final do o jogo,
só me toquei quando os créditos acabaram de passar e a música parou. Recomendo
principalmente para quem acredita que os jogos são apenas entretenimento não
tão barato.
Acho que o equivalente desse tipo
de jogo dentro da sétima arte seria um filme cult, dirigido por um diretor talentoso, mas pouco conhecido pelo
grande público, que aborda um tema
profundo com uma sensibilidade que foge a maioria dos filmes blockbusters de Hollywood.




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